sexta-feira, 10 de abril de 2015

Fire

People are fire
Where to stand means gold
                              means goal
                              means cold
                              means coal

Harsh times came
Hard people became

And you, meant to dissolve into nothing,
Will you become nothing?
Will you hit hard because you have been hit hard?

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

7 - 18 - 32 - 40 - 58 - 74 - 82 - BINGO!

7
JOGUE OS DADOS:
Homem ou Mulher? Menina.
Laços de fita, bonecas e bonbons.
Mademoiselle, teclas brancas e pretas...
Não, você não pode brincar na chuva!
Largue este gato imundo agora mesmo.

18
JOGUE OS DADOS:
Avance uma casa: você se casou.
Fraldas, bonecas e bonbons.
Vamos curar esse umbigo com pó de café.
Cuidado, o seu bolo está queimando!
Esteja sempre arrumada quando seu marido chegar.

32
JOGUE OS DADOS:
Retroceda uma casa: seu marido tem uma amante.
Lenços, chás e bonbons.
Vamos guardar essa carta da vizinha.
Cuidado, seu menino está queimando!
Esteja sempre acordada quando seu marido chegar.

40
JOGUE OS DADOS:
Avance três netos: suas filhas também estão no jogo.
Mais fraldas, bonecas e bombons.
Vamos aprender ponto-cruz?
Sua vela está queimando.
Esteja sempre ocupada quando seu marido chegar.

58
JOGUE OS DADOS:
Aguarde sua vez: você ficou viúva.
Nojo, rosário e bombons.
Vamos rasgar aquela carta da vizinha.
Veja, seu ponto-cruz está perfeito.
Seu marido não vai mais chegar.

74
JOGUE OS DADOS:
Retroceda trinta casas: você está senil.
Laços geriátricos, fraldas de vizinha e bombons.
Vamos tocar os gatos pretos e brancos?
Veja, seu ponto-cruz está queimando na chuva.
Esteja sempre radiante quando Seu Morte chegar.

82
JOGUE OS DADOS:
Homem ou Mulher? Cadáver.
Mortalha, rosário e
Não há bombons, ou gatos, ou maridos.
Há quem não esteja queimando?
Sim, você pode brincar na chuva e leve seus dados imundos com você.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

a mulher é uma construção


Angélica Freitas


a mulher é uma construção
deve ser

a mulher basicamente é pra ser
um conjunto habitacional
tudo igual
tudo rebocado
só muda a cor

particularmente sou uma mulher
de tijolos à vista
nas reuniões sociais tendo a ser
a mais mal vestida

digo que sou jornalista

(a mulher é uma construção
com buracos demais

vaza

a revista nova é o ministério dos assuntos cloacais
perdão
não se fala em merda na revista nova)

você é mulher
e se de repente acorda binária e azul

e passa o dia ligando e desligando a luz?
(você gosta de ser brasileira?
de se chamar virginia woolf?)

a mulher é uma construção
maquiagem é camuflagem

toda mulher tem um amigo gay
como é bom ter amigos

todos os amigos têm um amigo gay
que tem uma mulher
que o chama de fred astaire

neste ponto, já é tarde
as psicólogas do café freud
se olham e sorriem

nada vai mudar -

nada nunca vai mudar -

a mulher é uma construção




de "Um Útero é do Tamanho de Um Punho", 
Cosac Naify, 2012

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Salsão do Exílio

Minha terra tem palmeiras,
Onde só dá maracujá.
Os cupins que aqui vicejam,
Não se dão com o Tamanduá.

Nosso mé tem mais licores,
Nossos políticos têm mais cores.
Nossas contas têm mais IR,
Nossa BR, mais horrores.

Em cismar, sozinha, à noite
Me perdi do Marquês de Pira Já.
Minha terra tem algibeiras,
Onde se penduram os marajás.

Não permita deos que eu morra,
Inri Cristo Universal Saravá!
Na esquina da Augusta,
Diga ao povo que Fico em Itajubá.
Moro em Jaçanã,
Mas não vou lhe assaltá!



sábado, 8 de novembro de 2014

Notícias do Mundo




Uma semana antes do Halloween, o prefeito de uma cidadezinha no sul da França proibiu que os jovens usassem fantasias ou maquiagens de palhaço. Aparentemente, os adolescentes em todo o país adquiriram o hábito de assustarem e até espancarem transeuntes travestidos com a indumentária. Acho que Anthony Burgess teria achado essa notícia muito interessante. Talvez até processem alguns palhaços por incentivar atos de vandalismo. Entretanto, já vejo até a tese da defesa... uma palhaçada francesa.

http://www.bbc.com/news/world-europe-29846291

No interior da Índia ocorreu o casamento de dois macacos. Eram macho e fêmea, se é que isso ainda importa para alguém nos dias de hoje. E nem foi o primeiro. Aparentemente, a moda pode pegar. Houve uma festança depois da celebração. Os noivos estavam, como em um casamento qualquer, algemados.

http://www.bbc.com/news/world-asia-india-29892502

No lugar mais sensacional do mundo, o Japão, mais especificamente na cidade de Nara, uma versão das ideias visionárias de Fellini se concretizou quando dez monges (muito gatos) budistas desfilaram para uma seleta platéia de histéricas fashionistas japonesas, que, depois da emoção, passaram o resto do fim de semana em retiro espiritual em Paris.

http://www.bbc.com/news/blogs-news-from-elsewhere-29885061

Na Nova Zelândia (o lugar com o nome mais sem noção de todos) foram leiloadas duas importantes obras do bookmaker inglês Ken Talbot. Nunca ouviu falar? Ninguém ouviu. Só que Talbot conseguiu a proeza de falsificar as famosas e mundialmente falsificações de Elmyr de Hory, a ponto de quase enganar os especialistas no falsificador. O detalhe que merece menos atenção são as já distantes obras originais, "Em Giverny" e "Na Floresta" ambas de Monet. Os três pintores foram convidados para o evento, mas infelizmente Monet não pode comparecer.

http://www.bbc.com/news/blogs-news-from-elsewhere-29878832

Se é pra casar, que seja na China. Recentemente, onze pessoas foram presas acusadas de desenterrar corpos de mulheres recém sepultadas para realizar o que os chineses chamam de "casamento fantasma". Essa modalidade muito antiga, mas proibida hoje, se resume a desenterrar uma noiva para algum homem que tenha morrido solteiro e voltar a sepultá-la ao lado do marido-cadáver. Isso garante que o bonitão não passe a eternidade na solidão. Como eu disse, se é pra casar, que seja morta.

http://www.bbc.com/news/blogs-news-from-elsewhere-29847477

A profissão do futuro, meu filho, é operador de raio laser. As funções exigem habilidades um lixeiro com PHD em engenharia. Se quiser subir na carreira, uma especialização em astrofísica é altamente importante. Passar o dia jogando video-game, lançando raios laser para limpar a atmosfera terrestre será uma atividade super lucrativa. Pode apostar, pois o que não vai faltar é lixo. Já são 20.000 objetos maiores que uma bola de futebol vagando pela órbita da terra. E qualquer um desses vinte mil pode colidir com um satélite a qualquer minuto e mandar para o beleléu as brilhantes funções do seu smartphone.

http://www.bbc.com/news/world-australia-29847830

E pra fechar com chave de ourina, o Timeco vai abrir cemitério em São Paulo, onde os futuros residentes podem escolher que o local de seus jazigos fiquem próximos dos de seus ídolos. Eu espero que a empresa ofereça a cláusula de cumprimento certo e imediato do contrato.

http://www.bbc.com/news/world-latin-america-29844654

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Dialog(ic)o

L: Quando não vejo, não ouço, não falo. Queria existir apenas, sem necessidade de viver...

R: ...de um pouco mais que nada daquilo que esperava para si. Por isso, resolveu dar a volta...

L: ...atrair o cometa não foi fácil. Mas os campos gravitacionais funcionaram no final. Por pouco salvou-se a humanidade da devastação...

R: ...que se deu no coração da pequena flor que ela cuidava com muito amor...

L: ...mas o Amor não teria maiores responsabilidades. Eros, filho de Afrodite, tomou para si as dores humanas, mas em nada contribuiu para ajudar os homens. Sua cegueira só tornava as coisas mais difíceis...

R: ...mas para uma flor nada é impossível, basta um pouco de água e ar para começar tudo de novo...

L: ...novo é inédito, mas novamente é repetição. Não há nada de novo no novamente. Riu-se das incongruências do português...

R: ...que me falta para continuar a construir estas frases. não tarda e eu acho mais um palavrão. Será mesmo preciso? Quem sabe e vejo uma nova ideia...

L: ...não, não fazia ideia do que seria de sua vida. De nada adiantou o curso de filosofia, mas um aborto era algo muito sério mesmo. Melhor não contar a ninguém...

R: ...depois de comer mais uma cordinha importante, Audrey olhou para mim e falou "ninguém joga do meu jeito"!


(Brincadeirinha a quatro mãos - apesar de usarmos só duas - e duas vendas)

terça-feira, 21 de outubro de 2014

"A Nível de Masp"

Abaixo do nível do MASP tem crack
Acima do nível do MASP tem arte
mas no meio do vão tem samba
no meio do vão…

Cabe a menina que dança descalça
Cabe um pandeiro e uma mala sem alça
Cabe a morena que toca tambor
A madame e o poodle e o pouco pudor
Cabe a velhinha que transa maconha
O uruguaio que toca zamponha
Cabe o michê, o padre, o pastor
Cabe o amor e o seu Doutor

À nível de vão…
Cabe Degas, Manet e Matisse
Doctor Who, Kandinski
E quem disse que não cabe Picasso, Escobar e Neruda
O hippie e o epóxi
A teta e os truta
Cabe o coxinha maroto
O quadradinho de 8
O manifesto do destro canhoto
Democracia é dislexia

Gênio é o cara que inventou o lacrimogênio é o cara que inventou...
Soque não, seu doutor!!


(música de 1/2 dúzia de 3 ou 4)


quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Para B, mesmo que eu não queira


"Eros de novo - o solta-membros - me agita,
  Doce-amarga inelutável criatura"               


 - Safo, Fragmento 130
(trad. Giuliana Ragusa)


Da caça - me esqueço
Ó Arco,
quero de novo arfar em veloz
(...) perseguição

Da presa, me solto
Para sempre seria uma virgem

[    ] caçadora, fui flechada

Abatida, deu-se o deus
por vingado

Atingiu-me como cerva
Serva, tornei-me deusa

Eros de novo [    ]

Safo

Eros
[       ] Love
Lolita
           (...)  Loleros
Lero-leros                       Boleros

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Nota do autor

"Fui tradutor durante toda a minha vida adulta e considero a tradução o maior problema e o maior desafio da literatura. A 'outra' língua para a qual a obra do autor deve ser vertida não tolera obscuridade, trocadilhos, falsos brilhos linguísticos. Ensina o autor a tratar dos fatos ao invés de sua interpretação e a deixar que os acontecimentos falem por si. A 'outra' língua é muitas vezes o espelho em que temos a oportunidade de nos ver refletidos com todas as nossas imperfeições e, se possível, de corrigir algumas de nossas falhas".


Isaac Bashevis Singer

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Visconde

Fosse eu um visconde, assim iniciaria essa missiva:

Ah Senhora de meu Destino,
Quantos o Amor faz padecer!
E eu que, nem morto,
Dele posso me desfazer!

Tal sorumbática Verdade,
Ser a Morte tão solitária companhia,
Jamais se me havia vislumbrado
Nem na hora mais negra da Noite Vazia.

Mas não sou visconde verdadeiro ou sequer sou “de verdade”. Então como me atreveria a cantar trovas de amor e elegias a damas de amor inalcançável ? Não que tal dama não exista, ela sim existe. Vós, Marquesa, existis com todos os méritos e prerrogativas dos vivos. Já eu, eu estou morto. Ou nunca cheguei a viver, se ouvirmos os puristas.

Vivi. Para o cânone literário, para os tratados e os textos clássicos. Me agarrei a eles como o náufrago ao tronco... mas não, não posso me comparar a Crusoé, bem entendido que seria mais uma canhestra caricatura de Quixote, este sim, uma grande caricatura. Veja que ensimesmada figura tenho sido ou fui. E tal qual o cavaleiro da triste figura, mesmo sendo um homem de livros, presenciei as mais excitantes aventuras. Combati piratas e bandidos, me perdi no Palácio de Minos fugindo de seu monstruoso morador. Conheci Platão e Aristóteles, pelo amor dos deuses! Mas nenhuma dessas aventuras se qualifica como a verdadeira grande aventura - o amor.

Sendo um tanto quanto dantesco, pujante Marquesa, devo dizer-vos que nem os mais sublimes versos nem a mais refinada prosa podem consolar-me neste limbo onde me encontro. Somente vossa presença poderia me restituir a não-existência. Entretanto, aqui estou, como o mais miserável dos pecadores, prestes a adentrar os círculos do inferno e sem um Virgílio sequer para me guiar! E mesmo que houvesse um poeta para mim, certamente eu não seria tão afortunado que vossa excelência consentisse em ser minha Beatriz, aquela a abrir os portões celestiais para a triunfante entrada deste ser vegetal.

Sei que vosso sapiente coração não me daria permissão ou remissão. De que valem agora os falsos títulos nobiliárquicos? E os imensos e longuíssimos livros que me soterraram? Tudo o que este verme das letras sempre quis, mas nunca teve a coragem de mostrar foi o desejo de se libertar, um desejo endereçado a vossa pessoa.

A morte não é castigo, pois morto já era. Apenas repito-me. A pena deste purgatório é não poder vê-la com estes fracos olhos; é não mais poder estar presente quando a famosa torneira de asneiras se abre e a Senhora ilumina o mundo com toda a sua verve corajosa e a todos espanta com as mais brilhantes declarações. É não mais ouvir de sua graciosa boca costurada em cetim: “onde está aquele pedaço de espiga velha?”, tão fidedigna exaltação que me faltam palavras para respondê-la.

Mas, palavras tivesse, célebre Boneca, seriam em vosso louvor. Só peço aos deuses que minha ausência seja em algum momento notada por vossa onisciente sabedoria e que, louvada seja, mande por mim procurar neste cocho velho e mal cheiroso, onde um estúpido ruminante tem digerido meu frágil corpo. Caso contrário, fico aqui a desejar ter vivido.

A Bicicleta

O menino queria voltar para casa e precisava da bicicleta da loirinha para isso. Mas a bicicleta não estava muito boa da cabeça, pois já estava bem velhinha. Seus pneus já tinham perdido os cabelos e os dentes da roda já não funcionavam bem. Mesmo assim, ela sabia o quanto era importante para o rapazinho voltar ao seu planeta. Ela ouvia todo o tempo ele dizer “é tê minha casa”. Tinha pena do coitadinho desse menino. Tão feiinho, pensava, deviam ter expulsado ele de casa, talvez até porque ele fosse feiinho mesmo. Compadeceu-se dele. Não estava boa da cabeça, mas isso não queria dizer que gostasse de injustiças. O outro garoto, o irmão da loirinha, o 'seu' garoto já nem sabia mais o que era andar de bicicleta, só pensava em patins e skate, mas não agora. Agora, eles precisavam dela para ajudar o rapazinho.
Quem sabe ela não realizaria seu grande sonho, o de voar? Quem sabe o disco voador não levava ela também? Era uma ótima ideia, ver outros planetas, a via láctea, o Harley. Será que ele a deixaria correr em sua calda? Já não estava mais ligando pra ficar nesse mundo mesmo. Quando se é velho, ninguém mais presta atenção em você. Parece até que é um inútil de um maluco.
Colocaram o é tê em sua cestinha e o seu menino pedalou, pedalou e pedalou. Foi tanta pedalação que a velha bicicleta começou a voar. As outras bicicletas que os acompanhavam também deram um grande salto em direção à lua, mas não conseguiram.
Apenas eu estou voando, pensou, e de repente, a lua saiu do lugar para lhe dar passagem. O seu menino e o é tê já não estavam mais com ela. Seus velhos pneus agora não eram mais de borracha, eram feitos de pó de estrelas e ela não era mais uma velha bicicleta da terra. Era uma cadeira de rodas, uma cadeira com lindas rodas de poeira do universo e era ela mesma um cometa, um cometa que carregava uma galáxia supernova em seu colo e viajava à velocidade de deus em direção a um lugar muito escuro, um lugar que puxava toda luz como o bueiro puxa a água da chuva.
Ela entendeu o que estava acontecendo e percebeu que também ela estava indo para lá, para esse lugar onde as luzes já usadas ficam tão juntas, mas tão juntinhas que acabam virando um só pontinho bem pequenininho. A velha bicicleta ficou muito feliz porque viu que ela ia virar luzinha.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Crianças Voláteis

Essas crianças voláteis.
Meus vampirinhos de gás.
Como não amá-los?
Como não se cansar deles?
Parlando na língua do p,
Parecem pantamas pantoches.
Se o carrossel está bom,
- "Vamos para o escorregador!"
Escorregador, só mais tarde,
- "Vamos andar de trenzinho!"
A brincadeira de roda é a melhor,
Mas não completa o álbum.
É preciso saltar o balanço,
rodar a pipa e empinar o peão.
O que desejam tais anjos?
O que desejam esses anjinhos?
Virar fumacinha e sobrevoar.
as coisas doídas e feias.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Tropa do Moço





Tu tá maluco vai mexer com um cara desses
É brabo bigode grosso, moleque do tipo sheik
Tu tá maluco vai mexer com um cara desses
É brabo bigode grosso, moleque do tipo sheik
Quem vem de frente é a tropa do moço
Com o cabelo disfarçado
O bigode fino e o bigode grosso
Eu sou falcão do morro
Também sou ratão na pista
Toda Penélope Charmosa quer um Dick Vigarista
Igual ao boticário acho que tu se resume
Aqui a firma tá forte nos vamos lançar perfume
De Land Rover ou então de Sonata
Elas gritam e entram em pânico
Quando o nosso bloco passa
Perseverança para mim significa
Se levantar do zero e hoje se tornar o pica
E os recalcado fala mal e faz pirraça
Mas se tenho bala aparece
Nos amarra e a fumaça
Mas pode vim porque o ritmo é nervoso
Atividade meninas tá chegando o perigoso


DJ Vitinho

domingo, 9 de março de 2014

Funny Play

You know, I just realized we're at different stages of this game.
To be more accurate, we are not even playing the same game.
I guess I started with The Sims and you are Mr. Pac Man.
So, you see, even the plataform...

Maybe games aren't a good metaphor for what we've being doing.

So, let's say, we're are staging an opera.
I'm probably singing Carmen's L'amour
and you are tunning in Le Nozze de Figaro.

No, let's be fare to Mozart! 

You don't deserve the benefit of the buffa.
No doubt, you are Pasha Selim. 
You'll have a good ending and keep your harem...
But no aria for you in the whole play, just a secundary role

As in your Atari Way of Life. You'll get all fruits 
and scape all ghosts. Very sophisticated indeed.

I'd like to say "at least, I had fun", but I didn't.
I had hopes but this was my fault, right?
You see, I came with this defective natural good faith.

Although my games are not as free as yours,
They are at least honest. Anyone deserves clean rules
and I don't play dirty. See no point in doing so.

What I would like to play someday?
Fair Play it would be the name of the game.
And now, that I am in the field,
I have no intention of leaving. 

I just have to find another player, another baritono.
Someone inclined to dance a pas des deux insted of a passo doble.
I'm already stretching. Good luck to you. I don't need it.








sábado, 12 de outubro de 2013

O Fantasma e a Confiança



Copos e latas jogados nos canteiros não eram vestígios tão significativos quanto os jovens suburbanos bêbados que se espalhavam no gramado, dividindo o quadrilátero da praça com os metaleiros também bêbados. Guitarras poderosas tinham sacudido a praça horas antes em um show aberto ao público, que tinha comparecido em massa. Naquele momento, contudo, um vento forte finalmente varria as folhas e os corpos, como se uma grande operação de limpeza alísia tivesse sido contratada pela produção.

Ali estavam vários desses seres noturnos da fauna urbana, seres que transitam pela cidade madrugadas afora, geralmente espalhados, mas que com prazer se concentram em praças em eventos gratuitos. Entre eles um casal de namorados, estranhamente sóbrio e alheio aos resultados que o tornado musical havia deixado. Pareciam felizes de estarem sentados no duro cimento do banco, cercados por banheiros móveis, moradores de rua, jovens embriagados e algum lixo.

Conversavam, dando a impressão que as conversas entre eles ainda não tinham chegado naquele estágio onde estava tudo dito. Talvez essa aura de frescor, de novidade, é que tenha chamado a atenção do homem que se aproximou do banco. A mulher cautelosamente puxou a bolsa que tinha ao seu lado, colocando-a no colo. O gesto, no entanto, foi interpretado como um convite e ele sentou-se no lugar onde antes estava a bolsa, muito próximo dela. Ele tinha nas mãos uma caixa de cigarro amassada, mas não fumava. Na verdade, tinha tirado o papel prateado da caixa e o segurava com um cuidado desnecessário.

- Casal, será que eu posso mostrar uma arte para vocês?, perguntou com lentidão na fala, enquanto manuseava o papel.

 Ela ficou um pouco apreensiva, mas sentiu-se segura pela presença do namorado, cuja atitude era mais curiosa que assisada. O visitante era magro, mas não era franzino e via-se claramente que estava sob efeito de algum barbitúrico, embora não fosse fácil precisar qual tipo. Estava acompanhado apenas do cheiro característico de noites dormidas na rua, entretanto sua barba não estava muito crescida. Suas pupilas boiavam imensas nos olhos verdes, notou a mulher. Ele começou a dobrar o papel que tinha nas mãos, tão devagar quanto fazia todo o resto: falava, respirava e olhava vagarosamente.

Enquanto dobrava, rasgava e voltava a dobrar o papel, conversava. De vez em quando, lembrava-se de sua mochila que estava a alguns metros do banco. Nesses momentos, seu susto em câmera lenta produzia um efeito raro. Parava o que estivesse dizendo e fazendo e olhava para trás, na direção da mochila. Depois, acalmava-se percebendo que ele continuava no mesmo lugar, próxima a seus conhecidos, onde a havia deixado, e então voltava para a dobradura e o casal.

Fez perguntas aos dois e momentaneamente pareceu incomodado com a velocidade das respostas da namorada. "Ela é muito rápida", comentou com o namorado mansamente, o que causou risadas entre o casal. As dele eram espontâneas, já ela riu-se culpada da gafe, sentindo vergonha de seu estado mental tão díspar da madrugada e do vento insanos. Intimidada, tranquilizou-se quando percebeu que a conversa era, apesar de tudo, inteligente e agradável.

O namorado perguntou-lhe nome, ao que ele respondeu "*** Bezerra, mas pode me chamar de Fantasma" e riram todos com a genuína surpresa dela. Várias risadas interrompiam a conversa meio sem rumo e Fantasma repetia que sua mãe sempre dizia que "um dia sem rir é um dia perdido", mas nenhum deles parecia conhecer a famosa frase de Chaplin. Enquanto a dobradura avançava vagarosamente, a conversa seguia caminhos excêntricos, pois a cada resposta, Fantasma mudava a direção do jogo.

Ele contou que sua família era conhecida porque um antepassado, um tal de João Bezerra, tinha caçado e matado Lampião. Não contou essa parte com orgulho, mas com tristeza. Filosofou sobre a valentia e a morte, sobre a distância e a proximidade. Suas histórias dominavam a noite e apesar dos risos que acompanhavam os diálogos, os três estavam cobertos por uma fina camada de poeira, uma poeira humana, de milhões de existências unidas e desunidas, de vais e vens, de abros e fechos.

Disse também que seu avô tinha um jumento e que esse jumento se chamava Confiança. Confiança era um bom animal, mas um dia seu avô montou-lhe com menos gentileza e  Confiança jogou o velho dono no chão, matando-o. Nesta hora, Fantasma ria e olhava para o vazio, para o vento enlouquecido que tentava levantar a saia da namorada e que fazia as coisas flutuarem ao redor daquele banco de praça. A maneira como ele ria dessa anedota levantava dúvidas se era uma lembrança ou uma invenção. Seja o que fosse, era um poema épico do Homem e a Confiança.

Seu origami podia ficar pronto a qualquer hora, mas Fantasma não queria deixar. Pediu para ser convidado para o casamento dos namorados, lançou pensamentos contrastantes e em momento algum pediu qualquer coisa que não fosse a atenção do casal. Riam e se assombravam com a descoberta mútua até que os pingos grossos começassem a atrapalhar. Uma ventania súbita levantou toda aquela ecologia da madrugada, fazendo seus integrantes correrem para abrigar-se ou irem finalmente para as tocas onde dormiam.

Assustado com a rapidez da mudança, Fantasma finalmente percebeu que aquele momento suspenso no tempo tinha acabado. Praguejou contra a chuva, mas não teve tempo de se revoltar, pois os namorados despediram-se como bandoleiros em fuga, correndo para o carro como se os pingos d'água pudesse realmente lhes fazer mal, deixando para trás um Fantasma confuso com o alvoroço e magoado pela intempestiva conclusão.

No caminho para casa, a mulher, ainda surpresa com o encontro e tocada pela poesia prenhe naquele mundo de existência frágil e provisória de um banco de praça, se lembrou de uma música que ela cantava tanto de criança, mas que somente naquele momento havia feito sentido.


"Ah! Como eu tenho me enganado!
Como tenho me matado
Por ter demais confiado
Nas evidências do amor

Como tenho andado certo
Como tenho andado errado
Por seu carinho inseguro
Por meu caminho deserto

Como tenho me encontrado
Como tenho descoberto
A sombra leve da morte
Passando sempre por perto
E o sentimento mais breve
Rola no ar e descreve

A eterna cicatriz
Mais uma vez
Mais de uma vez
Quase que fui feliz

A barra do amor é que ele é meio ermo
A barra da morte é que ela não tem meio-termo"


domingo, 22 de setembro de 2013

A Seta e o Alvo




Eu falo de amor à vida,
Você de medo da morte.
Eu falo da força do acaso
E você de azar ou sorte.

Eu ando num labirinto
E você numa estrada em linha reta.
Te chamo pra festa,
Mas você só quer atingir sua meta.
Sua meta é a seta no alvo,
Mas o alvo, na certa, não te espera.

Eu olho pro infinito
E você de óculos escuros.
Eu digo: "Te amo!"
E você só acredita quando eu juro.

Eu lanço minha alma no espaço,
Você pisa os pés na terra.
Eu experimento o futuro
E você só lamenta não ser o que era.
E o que era?
Era a seta no alvo,
Mas o alvo, na certa, não te espera.

Eu grito por liberdade,
Você deixa a porta se fechar.
Eu quero saber a verdade
E você se preocupa em não se machucar.

Eu corro todos os riscos,
Você diz que não tem mais vontade.
Eu me ofereço inteiro
E você se satisfaz com metade.
É a meta de uma seta no alvo,
Mas o alvo, na certa não te espera!

Então me diz qual é a graça
De já saber o fim da estrada,
Quando se parte rumo ao nada?

Sempre a meta de uma seta no alvo,
Mas o alvo, na certa, não te espera.

Então me diz qual é a graça
De já saber o fim da estrada,
Quando se parte rumo ao nada?


Paulinho Moska

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Teófilo e o Dragão








Certa vez, um garoto chamado Tufik (se pronuncia Tufi), por força do destino e das guerras no mundo, empreendeu uma viagem de vários dias para atravessar o oceano, em uma viagem que  colocou sua vida em risco e foram seus pais que o mandaram. O garoto garoto tinha treze anos de idade e vivia com sua família no Líbano. Quando os pais de Tufik se decidiram a mandá-lo para longe, não lhe foi dada a escolha de permanecer. Não porque não fosse amado, mas porque eles se viram sem opções, sem poder oferecer o que todos os pais desejam para os filhos: a promessa de um futuro.



Eles procuraram por um navio de carga que sairia de sua terra (um trecho da Síria que depois viria a ser o Líbano) em direção ao Brasil e nesse navio confiaram Tufik à proteção de Deus. Anos antes, já haviam mandado uma filha e agora era a vez do filho varão. Sabiam que o mandavam para um país em quase tudo diferente do seu, de língua desconhecida e sem ninguém para receber o garoto. Entretanto, sabiam também que muitos compatriotas já haviam emigrando para esse mesmo país e que Tufik não estaria de todo desamparado. Ele poderia procurar pela irmã, de quem já não tinham o paradeiro, ou se juntar aos compatriotas, que certamente o iriam acolher. O importante era que o mandariam para um país cristão, católico e sem guerras ou perseguições.



Esta história aconteceu lá pelos idos de 1900. O Líbano daquele tempo era um território maravilhoso e de riquíssima cultura. Era tão belo e interessante que, após a criação oficial do país, os europeus costumavam chamá-lo de "Suíça do Oriente" e a capital, Beirute, apelidaram de "Paris do Oriente". Estes títulos não eram merecidos, pois nem Suíça nem Paris podem se comparar aos seus sete mil anos de história e o caldeirão cultural que se formou a partir de tantas civilizações que já não se pode ter certeza de seu número.



Líbano e Síria foram um dia a terra dos Fenícios, povo de matemática avançada, que inventou o alfabeto que veio a ser o sistema que nós usamos hoje. O alfabeto foi chegar aos gregos, e posteriormente aos romanos, porque os fenícios levavam sua cultura onde fossem, já que exímios navegantes e comerciantes por milênios. Também os amoritas, fenícios-cananeus, arameus, hititas, egípcios, babilônicos e tantos outros habitaram a região. Quando conquistada por Alexandre o Grande, passou a pertencer à "Civilização Helenística" e séculos depois foi incorporada ao Império Romano, como a Província da Síria. Foi em seu território, em Antióquia, que o cristianismo se iniciou e se disseminou para o mundo. Durante séculos, o Império Romano Oriental ou Bizantino manteve a unidade e paz na região, mas com a sua queda, foi a vez dos árabes conquistarem a província e a língua árabe se tornou dominante e oficial. A partir do século XVI a Síria foi integrada ao Império Otomano e por muito tempo se manteve próspera.



A partir do século XIX, conflitos religiosos assolaram a Síria e em junho de 1860 uma série de massacres entre cristãos maronitas e muçulmanos culminaram com a intervenção de tropas francesas e a divisão do território sírio entre as comunidades religiosas. Os otomanos criaram então o Pequeno Líbano, território criado para proteger a população cristã maronita. Com o fim da Primeira Grande Guerra, caiu o Império Otomano e as tropas francesas e britânicas ocuparam o território sírio, dividindo-o entre si. O Líbano foi colocado sob o mandato francês em 1922 e a República Libanesa foi criada em 1926, fruto de um acordo entre os muçulmanos sunitas e os cristãos maronitas.



Foi assim que o Líbano se formou como um país que fala árabe, de maioria cristã,  com missas rezadas em língua siríaca, e cuja cultura remonta aos primórdios da idade do bronze. A Igreja Cristã Maronita não é ortodoxa, está subordinada à Cúria Latina, mas tem ritos diversos, que mistura tradições do catolicismo romano e da Igreja Ortodoxa. Apesar do Líbano ter sido criado para servir de refúgio para os maronitas da Síria, a perseguição religiosa por parte dos muçulmanos foi tamanha que hoje menos de quarenta por cento dos libaneses são cristãos.



No auge das perseguições contra os maronitas, entre 1880 e 1900, calcula-se que chegaram ao Brasil cerca de 5.400 libaneses e sírios. Diferentemente de outros imigrantes, como europeus e japoneses, os libaneses e os sírios não vieram para trabalhar nas fazendas e lavouras. Como o comércio faz parte de cultura há milênios, nada mais natural para aqueles imigrantes que seguirem o mesmo rumo no Brasil.



Será que o cristãoTufik subiu ao navio imaginando se o comércio no Brasil também seria seu futuro?Despedir-se do pai e da mãe foi difícil, mas tudo na vida do rapaz tinha sido difícil e mais que se entristecer com a despedida, ele precisava se instalar sem que ninguém o visse. Precisava ficar escondido não somente porque era clandestino, mas porque morreria se fosse descoberto. O navio era constantemente inspecionado pelos perseguidores muçulmanos. Eles tinham longas lanças e espadas que usavam para trespassar os lugares que não podiam acessar, garantindo que ninguém escapasse.



O pequeno Tufik se escondeu embaixo de lonas, dentro de caixas e tonéis de madeira e quase foi descoberto pelos guardas. Ele via as espadas entrando e passando tão próximo de seu corpo que não podia respirar. Ele ficava muito quieto, rezando enquanto os guardas desembainhavam suas espadas e estocavam todos os vãos do navio.



Nesse momento crucial de sua vida, sozinho, clandestino, podendo perder a vida a qualquer momento, Tufik se apegou à única coisa que podia salvá-lo: sua fé. Orava e pedia a Deus que o protegesse. Mas era preciso mais que rezar. Era preciso oferecer algo, era preciso demonstrar a aliança, o pacto que une o Homem ao seu Deus. Tufik fez uma promessa a São Jorge que se salvasse chegaria ao Brasil construiria uma capela dedicada a ele.



A devoção a São Jorge no Líbano é muito forte, tanto que o santo guerreiro é o padroeiro de Beirute (como também da Inglaterra, da Etiópia, da Geórgia, de Londres, Moscou, Barcelona, Gênova, de Portugal e tantos outros lugares). Jorge talvez seja o santo mais popular ao redor do mundo. No Brasil, por causa de nosso sincretismo afro-europeu, sua figura é ainda mais forte, pois é identificado com Ogum, o orixá ferreiro. A história de Jorge, o mártir da Capadócia, é cercada de lendas e pouco se sabe de real sobre ele. O que se sabe com certeza é que era cidadão, soldado e tribuno romano e que foi torturado e morto por sua fé em 303 DC.


Gergious era filho de um soldado romano que nasceu na Capadócia (atual Turquia) e ainda criança mudou-se com a mãe para a Palestina. Sua mãe possuía bens e se esmerou em sua educação. Como seu pai tinha sido soldado do império, ele também seguiu a carreira das armas e chegou a ser promovido a capitão do exército romano. Tendo se sobressaído no comando militar, o Imperador lhe conferiu o título de conde da Capadócia. Aos 23 anos passou a residir na corte imperial, exercendo a função de Tribuno Militar, um cargo importante no império. Quando sua mãe faleceu, ele decidiu se mudar para a corte do Imperador Diocleciano.



Acontece que em 302, Diocleciano decretara a prisão de todo soldado romano que professasse o cristianismo. Jorge, que apesar de cidadão romano tinha crescido no território onde o cristianismo era dominante e sendo ele mesmo cristão, ficou inconformado com a decisão. Consta que ele foi ao encontro do imperador para objetar do decreto imperial e se declarou cristão. Não querendo perder um de seus melhores tribunos, o Imperador tentou dissuadi-lo oferecendo-lhe terras, dinheiro e escravos. Como Jorge mantinha-se irredutível, Diocleciano decidiu torturá-lo.



Seu martírio ganhou notoriedade e muitos romanos tomaram as dores do jovem soldado, inclusive a mulher do imperador, que se converteu ao cristianismo por essa razão. Em 23 de abril de 303, Jorge foi degolado e esse é o dia em que se celebra São Jorge. Foi somente na idade média que surgiram as lendas sobre o salvamento da donzela e a luta contra o dragão. O que elas simbolizavam na cultura medieval européia era a luta da fé contra a idolatria (representada pelo dragão).



Para um cristão maronita, São Jorge não é um soldado que mora na lua e mata o dragão, mas o mártir, o tribuno romano que ousou defender sua fé contra a perseguição religiosa. E certamente esta é a força de Jorge e todos os mártires, a fé diante o perigo, a entrega a Deus e a resistência frente a qualquer obstáculo.



Tufik sobreviveu a todas as lanças e espadas e, como o Jorge das lendas, seu corpo parecia fechado a elas. Seus perseguidores não o viram e não o atingiram. Quando finalmente chegou ao Brasil, recebeu um novo nome, pois seu nome seria difícil para os brasileiros. Foi renomeado Teófilo um nome bem escolhido, já que Teófilo significa "amor a deus". Seu sobrenome, Abdo, é de origem árabe e significa "o servo de Deus". Já Taufik ou Tufik em árabe significa "boa ventura".



Certamente meu avô teve boa ventura na vida e certamente era um homem que amava Deus. No Brasil, ele pode se estabelecer, casou-se, teve onze filhos e viveu uma vida de paz. Eu não o conheci e isso é uma grande tristeza para mim. Tenho poucas informações sobre ele, mas todos que o conheceram falam com respeito e admiração sobre ele. Quando penso em meu avô, uma figura quase mítica, tem um certo quê de heroísmo, não só por essa história que contei aqui, mas pelas várias outras que me contam, que o retratam como um homem muito interessante, que ensinava seus filhos com parábolas, rígido e misericordioso, que viajava e comerciava, que não saía de casa sem seu canivete.



É um mistério que eu nunca poderei desvendar, posso apenas imaginar o homem que ele era e tentar buscar sua presença na história dos inúmeros imigrantes que vieram para essa terra fugindo de perseguições e que mantiveram sua fé, algo que também é um grande mistério para mim. Porque, ao contrário de meu avô, eu não partilho da fé em Deus, mas creio que compartilho da sua vontade de viver e de crescer em paz, em respeito aos meus companheiros de viagem.



O que sei com certeza é que ele não encontrou sua irmã logo que chegou ao Brasil. Muitos anos se passaram até que eles finalmente se reencontraram, mas ele fez sua própria família aqui. Meu pai, o filho caçula, diz que ele tinha uma linda imagem de São Jorge tatuada no braço e que realmente construiu uma capela para o santo em Belo Horizonte. Ele foi fiel à sua promessa e também à promessa feita por seus pais de construir uma nova vida. Não sei se é possível, mas gostaria de encontrá-lo um dia e fazer as milhares de perguntas que ninguém aqui pode me responder.





sábado, 10 de agosto de 2013

Playground








Crescer é algo muito perturbador. É uma sucessão de instantes onde, bem à sua frente, o parquinho de brincar vai se transformando no mundo e o que passa pelo escorregador não é você, mas o tempo.