Estou lendo um livro sobre fotografia e essa semana fiquei pensando no poder das imagens, poder esse que vai muito além do trabalho intelectual, embora facilmente seja rico material para isso. As imagens estão aí, tão onipresentes que alguns argumentam que vivemos um ditadura das imagens, que estaríamos saturados delas. Não vou entrar nesse tipo de discussão, por mais interessante que sejam as visões semióticas, psicanalíticas ou cognicistas.
Meu interesse mesmo é contar sobre duas exposições fotográficas maravilhosas que tive a oportunidade de ver e que me tocaram tão profundamente que gostaria compartilhar. A primeira me pegou pela emoção mais básica possível e a segunda através de uma elaboração intelectual muito mais complexa.
A primeira foi a exposição "Face to Face" que vi em 2005 no Museu de História Natural em Londres: uma ala do museu que abrigava conjuntamente um livro de Charles Darwin e uma assombrosa coleção de 30 retratos de James Mollison. Essa ala foi isolada do resto do museu e formava um corredor de dimensões palacianas que estava na penumbra, restando iluminados apenas imensos painéis de dois metros de altura dispostos paredes laterais e dianteira. Eu não sabia do que se tratava e fui surpreendida por me deparar com imensos retratos de chimpanzés, gorilas, bonobos e orangotangos, os chamados primatas superiores.
Não uso o termo assombrosa sem motivo. Devo dizer que após alguns minutos, precisei sair da sala, pois comecei a chorar copiosamente pelo impacto daquele ambiente e daqueles painéis. Levei algum tempo pra entrar de novo e jamais vou me esquecer do que vi e senti naquela tarde.
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| Katie |
Pela dimensão das fotos, sua disposição e a iluminação escolhida, fiquei verdadeiramente face a face com aqueles seres tao absurdamente iguais e diferentes. Era como me olhar no espelho e ver outras de mim com olhares torturados, perdidos, distantes. Minha emoção foi tal que ate hoje não tinha conseguido racionalizar, transformar em palavras e somente agora reconheço o que vi naqueles retratos.
Dizem que os humanos são programados geneticamente para reconhecer desde bebês emoções nos rostos de nossos pares, trata-se de uma característica hereditária. Até aí tudo bem, o que eu não esperava era reconhecer tais emoções naqueles rostos. E não eram emoções quaisquer. Todos os 30 animais retratados vinham de abrigos, a maioria era órfã, muitos vítimas do mercado negro de caça ou captura de animais vivos. Todos haviam sofrido traumas físicos e emocionais antes de serem resgatados. E foi isso que eu vi em seus olhos, no rosto de cada um deles: dor, confusão, alienação. Alguns eram praticamente bebês, outros já idosos, em alguns distúrbios mentais eram perceptíveis.
Cada painel era acompanhado de um texto que dava algumas informações sobre o animal retratado. Naquele dia, eu preferi não ler esses textos de pronto. Primeiramente, vi cada um dos retratos e fiquei imaginando o que eu consegui ler em seus olhos. Somente após isso é que eu fui novamente em cada retrato e chequei as informações. Foi muito interessante, pois algumas coisas eram absolutamente inesperadas.
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| Gregoire |
O fotógrafo foi tão potente que senti que em cada painel ele havia capturado um indivíduo e suas dores e personalidade(por isso eu prefiro o termo retrato) e não mero um macaco, mas um bonobo cujo rosto estava à minha frente, sua história e um nome estavam ali ao lado para que eu pudesse juntar as metades. Sei que somos capazes e tendemos a antropoformizar qualquer coisa, incluindo rochas. Mas o ponto ali era justamente esse, eu não o estava humanizando, ele estava jogando sua humanidade na minha cara! Ou, pelo menos, tudo que normalmente percebemos como humano.
O retrato de Katie, por exemplo, tinha a seguinte inscrição: "2 anos, Chimpanzé, fêmea, nascida na República de Camarões. Pais mortos para comércio de carne de caça. Confiscada do traficante por um caçador que a manteve em uma pequena caixa em uma cabana na vila de Akom. Sofre de doença mental. Fotografada em Dezembro de 2001".
Outros retratos traziam informações da personalidade de cada um, travessos, irritados, carinhosos. Não me esqueço de um deles que não conseguia dormir no escuro ou sem seu urso de pelúcia. Felizmente, muitos dos retratados conseguiram se recuperar, pelo menos em parte, nos abrigos onde estavam vivendo. Outros sofreram danos emocionais tão profundos que possivelmente irreparáveis.
Afora as questões preservacionistas e evolucionistas que a exposição certamente levanta, foi a minha emoção que me pegou de calças curtas. Creio que eu ficaria tocada por retratos de crianças refugiadas ou fotografias de guerra ou da seca num vale qualquer no mundo. Mas, encontrar sinais tamanhos de dor e personalidade em caras de 2m x 1,5m - caras de macaco - foi certamente algo inesperado e profundamente tocante, triste e enriquecedor.
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| Tatango |
http://www.nhm.ac.uk/resources-rx/files/face-to-face-information-pack-14733.pdf
http://www.jamesmollison.com/project_apes.php



Impressionante as fotos. Queria ter visto de perto essa exposição.
ResponderExcluirDeve ter sido tudo isso mesmo que vc escreveu lindamente.